Juros altos comprimem orçamento das famílias e podem afetar o consumo em bares e restaurantes
Foto: Mikhail Nilov/Pexels
O início de 2026 trouxe novos sinais de aperto financeiro para as famílias brasileiras. Segundo dados do Banco Central divulgados pelo G1, a inadimplência total atingiu 5,0% em janeiro, o maior patamar desde 2017. Entre as famílias, o índice chegou a 6,4%, revelando um quadro de endividamento crescente e perda de capacidade de pagamento no curto prazo. Esse avanço da inadimplência pode reduzir a margem que o consumidor tem para gastos ligados à alimentação fora do lar.
A situação preocupa porque o setor depende diretamente da renda disponível. Com juros elevados, dívidas mais caras e compromissos acumulados, cresce a probabilidade de o consumo desacelerar. Mesmo sem efeitos imediatos nas vendas, o risco de impacto futuro existe, principalmente se a inadimplência permanecer em trajetória de alta.
Do lado das empresas, a fotografia também merece atenção. De acordo com pesquisa recente da Abrasel, 35% dos bares e restaurantes têm hoje pagamentos em atraso, incluindo encargos, impostos, aluguel e fornecedores. O índice vem melhorando aos poucos (era de 39% há um ano), um sinal de resiliência, mas que ainda convive com desafios relevantes. Esses números mostram que, além da renda do consumidor, o próprio caixa das empresas segue pressionado por custos elevados e crédito caro.
Esse cenário de fragilidade financeira também se conecta diretamente ao debate sobre o fim da jornada 6x1. Em artigo publicado no jornal O Globo nesta sexta-feira, o presidente da Abrasel, Paulo Solmucci, alerta que mudanças desse tipo, quando desconsideram a realidade econômica do país, tendem a transferir custos de forma injusta para quem tem menos renda.
A redução da jornada sem redução salarial pode elevar significativamente o custo da mão de obra, pressionando preços e reduzindo a demanda.
"Em um contexto de famílias já endividadas, esse aumento recairia com mais força sobre o consumidor de baixa renda, que sente tanto o encarecimento do consumo quanto a diminuição da oferta de serviços nos bairros onde vive. Além disso, pequenos negócios, com menos fôlego financeiro, perdem competitividade ou acabam fechando, o que aprofunda desigualdades, reduz empregos e enfraquece a economia local", afirma.
Para Solmucci, a combinação de famílias endividadas e empresas com pouco espaço para manobra financeira exige cuidado. Se os juros continuarem altos, tanto consumidores quanto empreendedores podem enfrentar mais dificuldades para reorganizar suas finanças. E, em um setor sensível a variações de demanda, qualquer movimento prolongado de aperto pode atrasar decisões de investimento ou expansão.
Segundo o presidente da Abrasel o momento também pede equilíbrio e atenção redobrada às condições de crédito.
“Quando a inadimplência das famílias sobe, como mostram os dados do Banco Central, cresce o risco de uma retração no consumo. E, ao mesmo tempo, vemos que mais de um terço dos nossos estabelecimentos têm pagamentos em atraso, o que revela um setor que segue trabalhando muito, mas sob forte pressão".
"O país precisa avançar em políticas que reduzam o custo do crédito e permitam que tanto famílias quanto empresas retomem fôlego. Com juros mais adequados, o consumidor reorganiza suas contas, o empreendedor investe, e o ciclo econômico continua a girar.”
Solmucci reforça que o setor tem condições de reagir, desde que o ambiente econômico permita previsibilidade. “O que mais precisamos agora é garantir que o desemprego continue baixo e que os juros não sufoquem a capacidade de consumo e investimento. Quando o consumidor melhora sua situação financeira, o setor sente imediatamente. Assim, os bares e restaurantes podem continuar empregando, inovando e movimentando a economia”.
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